Pesquisar neste blogue

📌 “Este blog integra o ecossistema: Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Estudos, peças raras, maximafi

📌 “Este blog integra o ecossistema: Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Estudos, peças raras, maximafilia, marcofilia e história postal.

Páginas

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Os Amigos da Filatelia: Raul, Adelina e um Postal de Fantasia: Sociabilidade e Memória na Horta de 1915

Os Amigos da Filatelia: Raul, Adelina e um Postal de Fantasia: Sociabilida...: A história do colecionismo é feita de pequenos objetos que, quando observados com atenção, revelam muito mais do que a sua aparência sugere.

Entre os diversos elementos que podem despertar o interesse do colecionador num bilhete-postal ilustrado, nem sempre a imagem constitui o aspeto mais relevante. O exemplar aqui apresentado merece particular atenção pela utilização de uma marca-dia da Horta do tipo 1880, aplicada durante os primeiros anos da República sobre um selo da emissão Ceres com sobrecarga «Açores».

O postal reproduz a composição francesa Tambour et Bouquetière (Ronde Enfantine), uma cena infantil colorida à mão acompanhada por um excerto musical impresso. Produzido pela editora parisiense Croissant, integra uma categoria de postais de fantasia amplamente difundida durante as primeiras décadas do século XX.

Do ponto de vista filatélico, o elemento mais relevante é a obliteração da Horta datada de 19 OUT. 15, aplicada sobre um selo de ¼ de centavo da emissão Ceres com sobrecarga «Açores». A peça documenta, assim, a utilização de uma marca-dia do tipo 1880 na Horta em 1915, evidenciando a continuidade de instrumentos postais herdados do período monárquico no contexto dos serviços postais republicanos.

A permanência destes equipamentos não constitui um fenómeno inesperado. Nos Açores, tal como noutras regiões periféricas, a substituição dos instrumentos de serviço processou-se de forma gradual, coexistindo durante vários anos diferentes gerações de carimbos e datadores.

O postal apresenta ainda alguns aspetos dignos de nota. O remetente, identificado apenas como Raul, dirige a mensagem a Adelina Maria Morais de Lima, residente na própria cidade da Horta. A correspondência encontra-se manuscrita e datada de 14 de outubro de 1915, cinco dias antes da obliteração.

A utilização de um selo de ¼ de centavo, correspondente ao valor mais baixo então disponível, associada à presença de texto manuscrito e a um destinatário local, levanta questões interessantes sobre a finalidade da peça. Embora os elementos disponíveis não permitam estabelecer conclusões definitivas, poderá admitir-se a hipótese de uma utilização de natureza predominantemente filatélica ou memorial, eventualmente destinada a conservar o postal como recordação ou oferta.

Se esta interpretação estiver correta, a marca postal deixa de assumir apenas uma função administrativa para integrar o próprio significado do objeto. O carimbo passa a constituir parte do valor documental e simbólico da peça, contribuindo para a sua preservação.

Independentemente da interpretação que se adote, este bilhete-postal constitui um interessante testemunho da história postal açoriana, associando numa mesma peça a emissão Ceres sobrecarregada para os Açores, uma marca-dia do tipo 1880 utilizada na Horta e uma prática de comunicação pessoal característica da sociedade açoriana do início do século XX.

Mais de um século depois, continua a demonstrar como uma simples combinação de imagem, mensagem, franquia e obliteração pode transformar um objeto aparentemente vulgar numa fonte relevante para o estudo da história postal dos Açores.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Postal Máximo Chá dos Açores (Ribeira Grande)

 

O CHÁ NOS AÇORES

No século XVI, o chá foi apresentado a sacerdotes e comerciantes portugueses na China, que mais tarde o introduziram na Europa. Os portugueses deram-lhe o nome de Chá porque o caractere chinês para “chá” pode ser lido como Te (que vem da palavra malaia para “beber”) ou pode ser lido como Cha (derivado da palavra em mandarim para “colheita”).

Acredita-se que a produção de chá tenha sido introduzida nos Açores no início do século XIX - por volta de 1820 - por Jacinto Leite, um açoriano nascido na ilha de São Miguel. Na época, Jacinto trabalhava como comandante da Guarda Real de D. João VI no Brasil e decidiu criar a primeira plantação de chá em São Miguel, utilizando sementes que havia trazido do Rio de Janeiro.

O clima da ilha provou ser bom para as colheitas e o cultivo do chá lentamente ganhou apoio na ilha. Enquanto a produção e exportação de laranja - uma parte muito importante da economia da ilha - estava em claro declínio, a produção de chá parecia um substituto promissor. Isso fez com que os membros da Sociedade Promotora Micaelense considerassem a produção de chá como o próximo ciclo económico da ilha.

Portanto, a produção de chá tornou-se uma ocupação importante para o povo da ilha e sua economia, atingindo o seu auge na década de 1950, quando as exportações alcançaram a impressionante quantidade de 250 toneladas, como resultado de 300 ha de cultivo. Para uma pequena ilha no meio do oceano, esses eram números muito impressionantes e o futuro do chá nunca parecia tão brilhante.

Contudo, com as consequências da Primeira Guerra Mundial e da Protecção Aduaneira do Chá de Moçambique, a produção e exportação de chá nos Açores começou a enfrentar dificuldades crescentes. Essa situação desencadeou uma crise tão profunda que, em 1966, das 14 fábricas de processamento de chá, apenas 5 continuavam em funcionamento. Actualmente, existem apenas duas: a Fábrica de Chá Gorreana e a Fábrica de Chá Porto Formoso.

Texto retirado de:https://madeinazores.eu/pt/content/25-o-cha-nos-acores